Música (s) de la semana: Ellen Oléria: negra, lésbica e feminista


Música, cantora, compositora e atriz brasiliense. Ellen Oléria também é negra, lésbica e feminista. Sua voz entoa uma melodia poderosa e sua performance cênica cheia de atitude magnetiza a todos. Ellen canta, toca e mistura ritmos brasileiros com soul music e levadas de jazz, transparece sua negritude no palco e nas letras. Em entrevista de 2009, Ellen afirma: “Canto o universo de uma negra, lésbica, criada no Chaparral, região entre Taguatinga e Ceilândia”.

Conheci Ellen Oléria em 2009, por meio de uma estagiária. No primeiro show que assisti fui totalmente cativada. Ellen é linda e sua presença no palco, com roupas coloridas e um sorriso imenso no rosto nos faz agitar. Porém, seus versos batem forte em nossas mentes, o sentimento de resistência é visível e presente. Em músicas como “Mandala”, Ellen fala sobre a poeira vermelha que cobre a vida de tantos que vivem nas periferias do Distrito Federal e sobre a realidade de tantas mulheres:

Mandala de Ellen Oléria

Poeira, poeira lavadeira, enfeitadeira, poeira.

Poeira vermelha.

Ei, Antonina, preste atenção seu irmão.

Argemiro estenda a mão

Quando lhe for pedida.

Mãe vai na frente britiitando solução.

Buscando última empreitada.

Fechando à fogo a mandala.

Antonina, Antonina, minha filha,

Cuide da sua vida,

Não deixe parecer com a minha.

Eu fiz silêncio demais.

Na música “Senzala”, também conhecida como “Feira da Ceilândia”, Ellen retrata em longos versos o cotidiano de uma das maiores feiras do Distrito Federal e os sentimentos que perpassam seus frequentadores, além de compará-la ao elitismo preconceituoso dos shopping centers:

Senzala – Feira da Ceilândia de Ellen Oléria

A feira da Ceilândia te oferece o que quiser comprar. Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar. Cinto da moda.

Sinto vontade, grande necessidade de comprar. Roupa xadrez, meia longa, bota preta pra arrasar. Estilo colegial: brega, veste mal vamos parar. Mulheres dêem à cor o seu destaque. Esbanjem no batom e no esmalte. Muita roupa já é coisa de perua. Daqui a pouco tem gente andando nua.

Sinto vontade, grande necessidade de dançar. Danço o axé, o pagode. o rock vai ter esperar. Quarteto, quinteto estrangeiro é o som que vai rolar. Guarde seu velho cd na estante. Agora você vai curtir um funk. Lambada som da hora na senzala. Melhor dançar agora porque passa.

Sinto vontade, grande necessidade de observar. Onda do norte, coisa de nobre. Vamos copiar. Desde filme titanic à sanduíche. Virgindade lá é coisa do passado. E se voltar à moda o quê que eu faço?! Brasil, não é que há algo que te estrague, mas santo de casa não faz milagre.

Mas o que você precisa mais na feira não se pode encontrar: razão, consciência, senso, inteligência, uma cabeça pra pensar. Isso só no shopping lá do centro você vai achar. Se tiver dinheiro pra comprar. Boa aparência pra entrar. Não tenho dinheiro pra comprar. Hoje eu vou voltar pra feira. Pra feira de Ceilândia. Hoje eu vou voltar pra feira. Lá tem pastel e tem caldo de cana.

Ellen começou a se apresentar publicamente aos 16 anos, atualmente já completou dez anos de carreira. É visível que não foi um caminho fácil. Onde uma mulher negra e lésbica poderia encontrar espaço para mostrar sua arte e se expressar? Ellen é uma grande vitória e uma pessoa muito especial na cena cultura de Brasília, mas não podemos esquecer que ela é a exceção. É por isso que seu cotidiano e sua guerra diária está presente em suas letras, para nos lembrar de tantas Ellen Olérias que tristemente ficam em silêncio.

Em seu site oficial, há uma curta autobiografiaem que Ellen nos conta mais sobre seus sentidos, aprendizados e olhares. Faz um retrato 3×4 de uma vida marcada por poucas oportunidades, mas por um desejo constante de mudar essa realidade:

tudo que aprendi a tocar depois do b – a – bá que meu irmão me ensinou, aprendi olhando e principalmente ouvindo e experimentando. estudei quatro meses de teoria musical e não restou nada na minha cabeça desse tempo nem a “sê-menina” nem a “colcha-cheia”. assim como os quatro meses de escola técnica que fiz, pra ser uma eletrotécnica, assim como o mês trabalhando em floricultura, o mês de assistente de caixa na loja de sapatos, ou o ano de telemarketing. nada disso eu lembro direito. lembro mesmo das músicas de abertura dos desenhos que eu vi (e vejo!), das séries japonesas, das novelas mexicanas das antigas.

lembro do gosto da vitamina de abacate, da cor do vestido da moda das vizinhas e das bonecas delas. lembro da minha mãe me dando apoio mesmo sendo contra o curso de artes cênicas, mas contando pra todo mundo da vizinhança que eu estudava na universidade de brasília, com o maior orgulho. lembro do primeiro beijo, mas lembro melhor do último. lembro de cantar pra pagar as contas e de vez em quando de não conseguir. e lembro de muitas vezes conseguir. lembro de dar bronca na minha irmã porque ela era preguiçosa pra decorar as letras e os arranjos da músicas. porque eu era sim, a “louca-do-ensaio!”: odiava ensaiar, mas insistia, pra sair bonito.

Em 2009, Ellen Oléria lançou o disco independente “Peça”. E em 2011, seu primeiro clipe oficial. A música é “Testando”. Sua letra fala especialmente sobre a insegurança das mulheres nas cidades: “A mulherada já sabe o cotidiano da rua. Anoiteceu sozinha cê não tá segura”. E sobre o racismo velado brasileiro: “Andando na rua de noite muita gente branca já fugiu de mim. A minha ameaça não carrega bala mas incomoda o meu vizinho”.

Universidade livre feminista

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